II. 2010. A Romaría da Senhora da Peneda

                               

                A ROMARÍA DA SENHORA DA PENEDA.

                    AUTOR: JOSÉ PINTO

                         Revista de Investigación “Etnografía”, nº 2, 2010. I.S.S.N. 1989.8541.

                    WEB. http://mesondoforno.com.

  


SANTUARIO DA NOSA SENHORA DA PENEDA

 

     O lugar da Peneda adquiriu expressão no século XVIII, em virtude da fixação dos trabalhadores e respectivas famílias, que se deslocavam para participarem nas obras do santuário e o culto à Senhora das Neves, muito provavelmente já estaria implementado a partir da primeira metade do século XIII. O culto à Senhora das Neves, na Peneda, poderia ter sofrido um grande incremento na segunda metade do séc. XVI em razão das grandes epidemias que grassaram por todo o País, nomeadamente, em Braga e Viana do Castelo, o que justificaria a deslocação de assinalável número de devotos à Peneda, a solicitaem a protecção da Virgem de semelhante flagelo (Pintor, 1976: 24-25). 

 

     Se datam da primeira metade do séc. XVIII as primeiras referências escritas sobre o fenómeno da Peneda, já no séc. XVII existia uma ermida, com capelão privativo (1736), que seria o pólo de romagem de muitos peregrinos, quer minhotos, quer galegos, que aumentariam em ritmo acelerado nas décadas e séculos seguintes.

     Iniciou-se, em pleno séc. XVIII, um complexo de obras grandiosas, que abrangeram não só a construção de um santuário, muito mais amplo, relativamente à igreja que existia, como a de edifícios grandiosos, os «quartéis», destinados a alojar os romeiros, além de, gradualmente, se abrirem e melhorarem os caminhos, que convergiam à aldeia. Quartéis que, ainda hoje se impõem na aldeia e que são alvo de fortes remodelações, nesta primeira década do séc. XXI, personificam a necessidade imperiosa em se conseguir, desde longa data, alojamento para as centenas de peregrinos, que, ainda, nas primeiras cinco a seis décadas do século findo, se deslocavam, a pé, de locais tão distantes, como os dos concelhos de Melgaço, Valença, Caminha, Monção, Ponte de Lima e Viana do Castelo, ou, das terras galegas de Xinzo del Lima, Ourense, Celanova, Randím e Baltar, por exemplo: 

     Nas inúmeras conversas informais que mantivemos no decurso do nosso trabalho de campo realizado em 1997 e no ano de 2000, com galegos e portugueses, todos foram unânimes em afirmar que a devoção à Senhora da Peneda mobilizava na semana das festas, em Setembro, aldeias inteiras, ficando, simplesmente, os inválidos, os idosos e os muito jovens. As festas decorrem entre o dia trinta e um de Agosto e oito de Setembro de cada ano e «[…] os romeiros começam a afluir a 28 de Agosto para assistir às novenas. Todos os dias seguintes entra e sai gente de forma a que nunca se juntam todos os romeiros e é bom porque se assim não fosse não caberiam no recinto da romaria […]» (A Concórdia, 18-9-1927).

     Pelas descrições que os nossos informantes efectuaram, o ambiente vivido nessa semana era muito sui generis. De cada aldeia, lusa ou galega, partiam os romeiros em grandes grupos, munidos de um cajado, no qual se apoiavam, do farnel, da pequena trouxa e dos indispensáveis instrumentos musicais. Os portugueses não se esqueciam do cavaquinho, da flauta e da concertina, enquanto que para muitos galegos o bombo, o reco-reco e a pandeireta eram instrumentos indispensáveis. Partiam, por princípio, com o pronuncio do crepúsculo da manhã e ao som das cantigas, que os jovens, rapazes e raparigas, faziam ecoar pelo silêncio da serra, ou, pelos caminhos das aldeias, que iam atravessando. À medida que se deslocavam, cruzavam-se, sucessivamente com outros grupos, que, em conjunto, continuavam a caminhada.

     Distinguiam-se os galegos oriundos das aldeias e lugares mais afastados, que se faziam transportar em mulas e jericos, que, uma vez chegados à fronteira, por exemplo, às aldeias de Pereira e Bouzadrago, tinham que deixar os animais, em famílias, já, com «reservas» de cortes para os abrigar e, claro, alimentar , pois as autoridades alfandegárias, apenas, permitiam a passagem dos peregrinos a pé. Uma vez em território luso, quer entrassem pelos Portos de Cima/Seara, pela Senhora do Anamão/Cainheiras, pela Ameijoeira/Mareco, ou, Mistura das Águas, surgiam-lhes as castrejas que lhes ofereciam os seus jericos, por serem muito mansos e não deixarem cair ninguém.

 

RITUAL DE XEONLLOS

 

     À excepção dos romeiros, que optavam pelos itinerários dos Ribeiros, ou do vale da Peneda, todos se encontravam e reuniam na freguesia de Castro Laboreiro e no Soajo, onde matavam o bicho com um copito de vinho numa das tendas, a fim de conseguirem forças suficientes, que lhes permitissem vencer as subidas íngremes, que os separavam de Tieiras, Portela do Lagarto e Miradouro. Mas, com o aparecimento da estrada, que conecta a Vila a Melgaço, quase sempre, surgia alguém com uma «carripana», uma camioneta velha, aberta nas traseiras, que se oferecia a transportá-los por uns cem escudos, que, divididos por uma multidão entrincheirada atrás, como as sardinhas na canastra, constituía uma quantia módica.

     Depois de todos acomodados, iniciava-se a viagem rumo a Tieiras e Portela do Lagarto, de onde, já, se vislumbrava o santuário e todo o espectáculo oferecido pelas multidões a descerem a ladeira muito inclinada rumo à Peneda. «Hoje o acesso é facilitado pela estrada. Os automóveis às centenas despejaram gente sobre a Peneda. Há vinte anos ainda as estradas mais próximas eram em Lindoso, Melgaço ou Tangil e depois grande maioria ia a pé ou a cavalo. Podemos mesmo afirmar que a quase totalidade dos romeiros da Peneda faziam o trajecto a pé desde as suas terras, algumas bem distantes […]» (Pintor, 13-11-1955: 1).

     Nesses tempos, quem se deslocasse, pela manhã, a Tieiras, à Meadinha, ou, ao Miradouro, por exemplo, desfrutava de uma imagem inédita e inesquecível, oferecida pelos cordões intermináveis dos romeiros que, provenientes das mais variadas direcções, convergiam para o fundo do vale em garganta, onde se insere o santuário. Movimentos cadenciados, animados pelos sons dos cantares e das músicas, ao que se associava o dos foguetes e o das girândolas lançadas pelos galegos, que desciam as vertentes íngremes da margem esquerda do vale da Peneda. Os foguetes eram lançados pelos portugueses, que se deslocavam nas encostas, não menos abruptas do Miradouro, para, em seguida, serpentearem nas sendas e veredas de Tibo e Baleiral, ou, nas da Meadinha, após terem passado, por exemplo, por Gorbelas, ou, pela Bouça dos Homens.

 

AFLUENCIA DE DEVOTOS 

 

     Pelo Miradouro entravam os romeiros provenientes, predominantemente, não só dos concelhos de Arcos de Valdevez (área sul) e Ponte da Barca, como todos aqueles lugares que lhes ficam a jusante, enquanto na Meadinha se reuniam, por princípio, os peregrinos oriundos dos concelhos dos Arcos (secção norte), Monção, Valença, Caminha, Vila Nova de Cerveira, ou, Paredes de Coura, que, seguindo itinerários distintos, tinham como nós imediatamente anteriores Gorbelas e Bouça dos Homens, enquanto os galegos, faziam a sua entrada pela Chã da Matança, Felgueira Ruiva, ou, por Tieiras e pelo Lagarto, aos quais se juntavam, predominantemente, castrejos e melgacenses. É a passagem dos romeiros em Val de Poldras. Aí passam eles aos milhares. Era um dos caminhos que mais romeiros levava à Peneda […]. Passavam ali vindos de Seixas, Caminha, Cerveira, Valença, Paredes de Coura, todo o concelho de Monção e parte dos Arcos […]» (Pintor, 13-11-1955: 1).

     Independentemente do percurso efectuado, a chegada ao santuário verificava-se, sempre, após longas horas de uma dura caminhada, o que não impedia, contudo, que os romeiros se incorporassem, de imediato, nos rituais litúrgicos calendarizados e efectuassem as promessas, que se tinham proposto realizar, caso a Senhora lhes acudisse, na aflição, que os atingira. Um romeiro descreve no jornal A Concórdia de 18-9-1927 o ambiente festivo de outrora. «De dia e sobretudo de noite que doidejante alegria, que grande entusiasmo o de todo aquele povo que ri, que folga, deliciando-se naquelas expansões, sem excepcionar os velhos que também se sentem remoçar, lembrando anos longínquos em que vieram à romaria […] não faltam tabernas de comer e beber, barracas de quinquilharias, mesas com refrescos, etc. […]». 

     Após o dever religioso cumprido, quase sempre, com a noite a despontar, pulverizavam-se os grupos, lusos e galegos, que se distinguiam pelas desgarradas, músicas e bailaricos a estenderem-se pela madrugada. Eram verdadeiros arraiais, para os quais muito contribuíam a alegria manifestada nas gargalhadas e cantares dos grupos galegos. «A nota mais vibrante de alegria é dada pelas espanholas, que numa dança constante, mostram aliar a resistência física um especial feitio por tudo o que é divertimento, alegria, prazer […]» (A Concórdia, 18-9-1927).

    Uma vez exaustos, os romeiros acolhiam-se sob uma lapa, ou, simplesmente, num cantinho, ou, num dos degraus do escadório, à espera que a manhã raiasse, para, em casos raros, se iniciar o regresso, pois a maioria permanecia, no mínimo um dia completo, de modo a ser-lhe possível participar nas celebrações estipuladas para esse período.

    Hoje tudo é diferente, a rede de estradas ao aproximar as aldeias, possibilitou que os romeiros, necessitem apenas de umas horas para cumprirem as suas promessas. Além disso, o fervor extrovertido de outrora, foi substituído, ou, pela indiferença de uma grande maioria dos jovens, ou, por uma certo desânimo dos mais idosos, motivada pelas profundas mudanças, algumas introduzidas pela própria Igreja no cumprimento dos votos, outras pelas rusgas, ranchos e desgarradas terem sido substituídas pelos sons esporádicos das concertinas, que, só os homens mais velhos teimam em tocar, num esforço inglório em recordar os outros tempos da romaria da Virgem da Peneda.

 

REFÊRENCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

 

Jornal A Concórdia, 18-9-1927.
PINTO, José — «Os santos esperam, mas não perdoam…» : um estudo sobre a romaria da Peneda. [S.l.] : Edição do Autor, 2002. ISBN 972-95729-4-1.
PINTOR, Manuel António Bernardo – A Peneda, terra dos meus avós. Notícias dos Arcos, 13-11-1955, p. 1; 27-11-1955, p. 4.
PINTOR, Manuel António Bernardo – Santuário de Nossa Senhora da Peneda : uma jóia do Alto Minho. [S.l. : s.n.], 1976.

 

ILUSTRACCIÓNS.

 

 

v  V

            VISTA EXTERIOR DO SANTUARIO DA PENEDA.

 

            RITUAL DE XEONLLOS DA DEVOTA DE CARA AO SANTUARIO.

 

       DEVOTA SUBINDO DE XEONLLOS OS PELDAÑOS DE ACCESO AO SANTUARIO.

 

 

 

 

    DIMENSIÓN FESTIVA DA ROMARÍA 

 

 

AFLUENCIA DE DEVOTOS NO SANTUARIO DA PENEDA
 

 

PROCISSAO DA NOVENA DA PENEDA,ONDE SE PODEM VER AMORTALHADOS

 

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